sábado, 20 de julho de 2013

Ah Esperança...

    E quem foi que disse que um dia ela existiu para ajudar? (...) Não, ela não é a última a morrer. Muito menos a mais sólida.
    A esperança há tempos deixou de ser aquela garotinha delgada, lânguida e esquálida necessitando urgentemente de um apego mais forte para que não seja derrubada no chão, logo após cuidada, fortalecida e levada pela eternidade.
    Esperança jamais foi uma garotinha, ela vestia intimamente o traje da morte, carregava nos braços fracos a foice sanguinolenta e sorria como quem deseja o diabo. Esta que prometeu a imortalidade e a força, a mesma que torna-se a primeira a esfarelar, que caminha de mãos dadas com o companheiro levando-o para o beiral de um edifício, que o deixa de vendas impossibilitando-o de ver os olhos verdes e sombrios.
    A Esperança foge, mas grita de longe, diz que está por perto e que deve continuar andando, andando rumo ao asfalt... rumo ao jardim. E ela deixa você se jogar, rindo ao longe, mas você a escuta chorando; e chora por ridículo que é e não sabe.
    Esperança senta-se na mesma beirada, olha seu corpo voar livre. Por instantes você sente um prazer considerável pensando aproximar-se da conquista, então, eis que o concreto lambe sua pele e beija seus ossos. Ainda assim, Esperança está lá, você sente a presença dela que acabou de pousar ajoelhada ao seu lado, ela diz - mesmo depois de sua fracassada aterrissagem - que no futuro haverá esperança, e que as coisas mudarão. Você venda de vez a retina ludibriada e sonha com o seu destino, que outros tomarão e concretizarão.
    Esperança rouba seu cérebro, seus braços, suas pernas, sua voz. Não, não pense que ela é ruim, Esperança deixa-lhe com o coração. Ah, que bela garotinha a quem você amou e cuidou, deixou-lhe com o mais importante, mas lhe tirou a razão. Pra quê razão?, indaga o amor. Você está feliz por não ter feito nada e apenas ter tido esperança, está completamente realizado por pelo menos pensar em um mundo melhor, enquanto tantos outros nem ao menos tinham mais desejo disso.
    Sim, sim, você é um bom homem - afirma o coração. Agora deixe que outros se destruam por acreditar demais e fazer "de menos". Deixe o fogo tomar conta e quem sabe a terra fique fértil, mas claro, isso quando no universo não houver mais nada. Porém tenha esperança, apesar de tudo se destruir, no final haverá possibilidade de dar certo, mesmo que não seja certeza. Tenha esperança, pois se falhar você a alimenta e um dia ela poderá ficar mais forte que você e mover-te. Hipnotizar e guiar. Tomado por uma esperança infindável. Um sorriso desastroso, mas sonhando, sonhando... Sonhando enquanto todos morrem. Enquanto a esperança devora suas ações.
    Ah Esperança. Esperança pequenina, Esperança menina, Esperança de um verde aterrador.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Eu encontrei o que estava procurando

    A noite tem uma sutileza mágica. É incrível como as maiores descobertas, os melhores acontecimentos e os mais plenos pensamentos sempre ousam surgir no mesmo período. Dessa vez, foi com a presença de uma fada.
    Uma estatueta de fada amarela.
    Parece loucura, eu mesma achei ser loucura no princípio, mas depois... Depois tudo muda.
    A peguei nas mãos e comecei a conversar com ela apenas pela mente, então venci a falsa postura e resolvi deixar as palavras saírem de modo natural. Teimei com ela por ter olhos tão vagos, desdenhosos. Me submeti à sua antipatia e fiz dela minha pedra de reflexão.
    Foi então que consegui concluir uma das teorias que mais me inquietava: o credo.
    Quando era criança, minha mãe me guiou para a vida cristã. Não de forma severa, imposta, apenas a acompanhava na igreja e não tinha nenhuma formação para contestar áquilo que para mim já era algo natural. Afinal, por sermos um país "laico" a religião imposta ditatorialmente seria a Católica de uma forma ou de outra. Não adianta. Se você aparecer com um pensamento diferente será apedrejado e guiado novamente para o mesmo caminho.
    Deixo claro que não questiono nem reclamo do que minha mãe crê. Apenas afirmo que não saber sobre o cristianismo é inexorável.
    Cresci e algumas perguntas relacionadas ao surgimento do mundo assolavam minha mente continuamente - ninguém soube responder com clareza nenhuma delas. Eis aí o começo das dúvidas.
    Ceticismo? Melhor não usar esse termo. Digamos que precisava de uma abrangência maior sobre o tema.
    Eu estava a um passo de achar. Foi a fada que me deu coragem pra prosseguir. Devo isso à ela, e obviamente, a mim.

    Não peço para creem. Peço para entenderem. A algum tempo a ideia de que o "Deus" que todos acreditam não servia para o meu mundo agarrou-se aos meus pés. Passei a acreditar sutilmente em energia, mas sem fé. O tempo passou e com os grãos de areia formou-se a ampulheta. Bingo!
    Minha constatação foi por meios quase científicos - quase. O método científico seguiu uma linha tortuosa (sinuosa pra fazer referência ao nome do blog). Tese: tudo constituí-se de energia. Então começaram as observações. O corpo: se focarmos no átomo, veremos que ele se subdivide várias e várias vezes, além do quark, então se tornará provavelmente energia. O nosso corpo é movido por ela. Precisa de energia para tudo. Mas ainda não é esse tipo de energia. Se olharmos para qualquer local do nosso organismo e subdividirmos até o fim, descobriremos que eles não são feitos de nenhuma partícula sólida, algo palpável, mas talvez energia fluida. Nosso corpo é feito disso. Os impulsos que passam para o cérebro, do cérebro, para a medula espinhal, etc, são feitos de quê?  Pense. É essa energia que forma o que somos, está incrustada no íntimo, responsável pelo nosso funcionamento, emoções, razão, tudo. Visualizando agora o cérebro: dizem que Einstein usou 10% do cérebro ou 6% (não lembro), enquanto nós usamos 3% ou 2%. Imaginem agora o que faríamos se usássemos mais que isso? Imaginem!
     O que explica a tal "miraculosidade" dos sinestésicos? Loucura?! Quem sabe eles usem àquilo que somos incapazes. Lembro uma vez de terem mostrado-me um vídeo de pessoas que veem as cores e sabores do som. E não é apenas uma, são várias! Então, o que me dizem? Ainda é loucura? Quem sabe elas consigam ver a energia das ondas sonoras e dessa forma moldarem-na. Com certeza elas devem usar uma porcentagem maior do cérebro. Se esses meros humanos conseguem fazer isso, reflitam sobre o que poderíamos fazer com o resto. A energia do restante poderia, talvez, ser convertida em "magia". Poderíamos canalizar a energia que forma tanto nós quanto o mundo e moldá-la. Torná-la concreta.
    É provável que não consigamos isso agora. Uma nova raça mais evoluída pode surgir. Acredito fielmente nisso. Ou ela já pode existir. De certa forma, ela precisa existir para nos criar. Mas digo uma raça submissa igual a nossa, que não passa de um pó.
    Voltando a ciência. De que o universo foi formado? De energia! Na física: de que são feitos o movimento das partículas, de uma bola com determinada energia potencial gravitacional e cinética? Deixarei essa para vocês próprios responderem.
    O Deus que tantos creem pode sim existir, ou pode não existir. Ele pode receber o nome de Deus, Alá, Criador ou Criadora, Deuses, Elementais e tantos que eu não tenho conhecimento. Também pode ser chamado de Ser de Energia, como agora o chamo por ainda não ter um nome mais apropriado. Esse ser vive em um mundo fora do nosso, em um universo maior e que armazena a receita da vida. Mas a manutenção desse universo já é algo que preciso refletir. Provavelmente nunca acharei a resolução perfeita. Voltando... Penso no Ser de Energia enviando parte do seu ser, magia, poder, para o nosso mundo, criando o nosso começo. Essa visão é plácida, majestosa, me enche de uma realização que nunca pensei sentir. Esse Ser de Energia não me pede nada, não me pede para cultuá-lo, fazer com que viva só por ele, não pede para ser o meu soberano, tudo que pede é que eu sinta a energia, que a preserve e a use para o bem. A energia agora pulsa em meu ser, desperta e ativa para quando eu precisar. Nada mais revigorante do que você saber sua composição, descobrir o seu credo. Terminar uma teoria.
    Uma música da banda U2 que sempre tocou minha alma sem antes eu nem ao menos saber a tradução, dizia: "But I still haven't found what I'm looking for.
    Hoje posso dizer que eu encontrei o que estava procurando. E poderia jurar que a fada olhou diretamente para mim. E dessa vez com orgulho.


sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Um por todos e todos por nenhum

    Solidão, amiga, hoje o texto é dirigido apenas a você.
    Havia relações que eu jamais ousei tocar profanamente o nome. Pensava estar certa, mas hoje vejo que não deveria tê-las posto em uma posição tão privilegiada do monte. Não mereciam tamanha confiança. Foram cumplicidades e histórias, anos e meses, risos e promessas, segredos e sonhos. Todos rachados.
    Sei que muitos passaram por isso, sabem do que falo. Relações que de nítidas vão embaçando com o tempo até tornarem-se opacas. Porém opacas só para você, nós. Para os outros... Ah, o que importa? Nunca foi um metal tão precioso.
    Ultimamente tenho estado distante de tudo - poucos que leem este confessionário provavelmente não suportam mais conflitos bestas que partem de mim, mas repetirei quantas vezes quiser que este blog nada mais é que o desabafo deles por menor que sejam. As pessoas parecem ter criado asco por mim. A timidez que foi embora deu lugar a um silêncio incômodo para os outros. O motivo é porque não me sinto mais a vontade com ninguém. Duvido muito que alguém ainda me conheça de verdade; o "eu" livre sem ser reprimido por nada. Duvido.
    Nos últimos três dias me aproximei de uma pessoa, não que isso não ocorra. Impossível. Mas foi uma aproximação verdadeira. Percebi que não existe nada no mundo que me fará mais próxima do que essa pessoa me fez. O resto realmente virou um definitivo resto.
    Aqueles dos quais preciso me afastar por bens maiores tornaram-se mais íntimos e fraternos do que os que me impõem a presença.
    Meu problema? Sempre acredito que as pessoas e situações vão mudar. Normalmente não mudam, mas nunca desistirei. Vou tentar até o fim, mesmo sabendo que meu afastamento piorará. Tenho medo de que se percam de mim. Que esqueçam de como eu sou.
    Torço para que aprendam a se importar com o pouco que represento. Serei cada vez mais falsa com elas, e se não me ajudarem, jamais me terão de volta. Temo pelo meu desapego com o mundo. Temo sobretudo com você, solidão. Creio que no futuro só restará nós duas. E seremos felizes, eu espero. Prometa a mim, pois eu não consigo ter mais nenhum apreço nem familiaridade com os que me cercam por comodidade. De fato, passei a te amar, solidão.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

12/12/12

    A igualdade se despede.
    Números que não representam nada. Mas para mim e mais duas pessoas era um dia especial, em que se deveria fazer algo especial. Isso começou em 2008, o por quê? Vai saber. Superstições...? Não, apenas vontade de tornar os dias, meses e anos que caíssem iguais diferentes (contraditório querer tornar algo que é igual em desigual). Provavelmente pela exoticidade mereciam ser lembrados. Pena que todos só repararam nele agora, quando tornou-se o último. As pessoas normalmente só valorizam a última bolacha do pacote.
    Esse será um texto sem sentido e fútil. Nada de relevante. Mas por meu queridinho estar dizendo-nos adeus, resolvi parar para pensar nele.
    Notem que o 12 é constante em nossas vidas. A dúzia, a meia dúzia, as 12 badaladas, o mês mais esperado que é dezembro (12), o dia das crianças, doze dias para comemorar o natal, e no meu caso, os 12 grande amigos. Pouca coisa que lembro, mas fingiremos ser muito.
    É apenas isso, sem maiores proporções. Queria ter proporcionado um dia feliz para ele. Até seria, mas... Mas.
    Que a próxima geração valorize seus sucessores querida data. E para aqueles que consideram um mal dia, assim como a sexta-feira treze, vou tentar fazê-los mudar de ideia. Você é apenas uma vítima, não é? Deixará sua marca e ficará para trás, como um dia que passou.
    Sei que o tal fim do mundo que tantos insistem em acreditar nada mais é que a sua deixa. Dizendo-nos adeus. E concretizando, uma nova fase. Onde o que é comumente abrirá espaço para as diferenças (que sejam, no mínimo, harmônicas). Talvez, se somarmos os números, ainda haja uma certa igualdade nesse tempo que virá.
    Duvido muito.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Diário de um "Perâmbulo"

    Para quê dormimos tanto? Se acordássemos naturalmente horas mais cedo não perderíamos o espetáculo dos céus o qual eu narrarei, em uma noite que meus pensamentos me perturbaram e que resultou no meu rendimento a eles.
   Considerações iniciais: não tome como coerente as palavras aqui usadas, foram as primeiras que surgiram e que permanecerão, pois gravaram o ato.

    O céu foi submetendo-se ao azul. Emergente à escuridão da noite e à densidade das nuvens. Chapiscado mais tarde de lampejos amarelos, meras faíscas tímidas anunciadoras do supremo e celestial Sol. E então o branco tenta a soberanidade. Incapaz. A tela torna-se tingida dos mais diversos tons, flocada por sonhos. Um avião corta-a, seu ruído longínquo na aurora que esbanja vida. O destino que leva e costura novamente o céu. Chamuscando lentamente, os gracejos pesarosos e humanos prostam-se de pé. Bocejos anunciam finalmente o dia.

05:02: o céu criou um emaranhado de enroladinhos de nuvens, dourados apenas de um lado - e espero que entenda o sentido ambíguo de dourar.
05:05: pequeninos voando no céu. E pensar que existe um mundo em cima de mim. Algodões amarelados transitam sobre minha cabeça que roda gratificada. Alguém pensa em mim.
05:07: o vento agradável começa a se dissipar. Está dando lugar ao ar artificial. Afinal, dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar.
05:08: o Sol começa a agredir suas irmãs nuvens em um gesto quee assemelha-se a um incesto.
05:10: talvez mais alguns minutos para que o calor ferva o couro. Meu joelho é aflingido finalmente pela hora de contemplação. Tenho pouco tempo, muito pouco tempo.
05:11: as formigas sumiram da minha janela. Ou será que eu as matei? Pobres devaneios.
05:12: o primeiro ônibus saiu às 04:30. Calmo e silencioso, cuidadoso para não acordar ninguém. Agora seus cascos tamborilam e ululam nas lombadas em frenesi.
05:15: deixei de constar anteriormente. Não sei se é a visão que me falha, ou se é um privilégio concedido pelos perâmbulos - conceda-me o termo. Mas, as nuvens param. Sim, param. Como já disse anteriormente: "alguns param para que outros prossigam." Ninguém prossegue, elas param apenas para descansar e posar para nossos olhos atônitos.
05:18: um azul perfeito, puro. O escuro misturou-se com o branco e deu cor a isto. A magnitude da energia. Algumas garras invisíveis cortaram superficialmente uma nuvem de tecido. Infelizes flocos andarilhos.
05:19: já é hora. Adeus mãe natureza. Obrigada Deus, fadas, elementares ou energia. A quem for o diretor da peça, meus singelos e verminosos agradecimentos.
05:25: ao escovar os dentes e uma pasta de dente já "salivada" ameaçar cair no meu diário de bordo; uma palavra que me veio a memória: Concêntricos.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Decisões Fúteis

   Existem dois lados da sobrecarga. Um é o cansaço, a falta de tempo, o estresse e a inutilidade para diversas coisas. O outro é saber que você está sendo um pouco útil na vida, que tem compromissos como qualquer pessoa responsável. Dizer para todos: "eu não posso, tenho muita coisa para fazer." ou "estou sem tempo" e até mesmo se queixar com certo orgulho: "eu estou exausta".
   Sempre entro em dicotomia; inútil versus útil. Não sou só eu, sejamos francos. Os humanos são indecisos, frágeis, nunca  têm certeza de nada, vai ser sempre "eu acho", "talvez", "provavelmente"... 'A raça superior', como se fôssemos. Acredito fielmente em outros seres, em vida nas outras galáxias, nos outros planetas, nas outras formas de mundo seja lá como são. Não é possível sermos os únicos imbecis neste universo. Mas voltemos para a questão: eu.
   Agora a verdade. Por trás de toda essa sobrecarga, meu corpo e meu encéfalo estão clamando copiosamente por um minuto de paz. Sei que estou deixando muitos deveres passar, me tornando novamente um nada que se preocupa com nada, sente nada e vive por nada. E quando tenho um único dia para aproveitar, eu realmente aproveito; e adivinhem o que eu faço: nada! A essa altura já devem estar se perguntando porque continuam a ler, se quiserem podem ir, quem se importa? Eu não.
   Há lacunas nos meus pensamentos que precisam ser preenchidas. O tempo está me tirando duas das coisas mais preciosas que eu tenho: o pensamento e a imaginação. Não posso viver como uma demente, não de fato, mesmo assumindo que em diversos momentos posso me autodenominar assim. Gosto de refletir sobre a vida, sempre fui uma pessoa que tira um dia para ser monótona e distante do momento, vagando. O silêncio é tão bom. A solidão também. Não que eu não goste de companhia, é óbvio que eu gosto.
    Eu perdi esses meus momentos íntimos comigo mesma. O tempo que sobra é parar um momento, ainda em pé, mirar para um canto qualquer e imóvel, estabilizar a visão e alçar voo e tentar pensar e não pensar em nada, eliminar todo seu resquício de raciocínio. Tentem. Depois você volta de repente, em um susto. Quando perguntam "no que você estava pensando?". Nada, em tudo. Esses pequenos segundos são importantes. Nossa capacidade humana não consegue compreender a corrente de imagens e situações que passou como um raio, mas você sabe que passou. Isso é o que vale.
   Ontem - e o ontem depois de eu escrever isso pode ser qualquer dia - eu deitei finalmente na minha cama, sem ter nada para fazer a tarde e repousei. Foi bom, porém eu queria ter pensado. Fatos da vida que precisam da minha explicação. Teorias criadas por mim e que só irão ser usadas por mim porque para os outros podem ter pouco sentido, mas justificam tudo. Conclusões acerca do que é comum, transformá-las no diferente. Poder seguir minhas ideias a todo custo e depois de muito raciocinar poder descansar enfim. Afinal, tenho um sério problema: não consigo relaxar antes de sonhar.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Decomposição do urso de pelúcia

    Ah, que saudade da infância. Da infância que não existe mais.
    Não falo apenas das brincadeiras simples, de jogar bola na rua com uma certa segurança, de brincar de balanço com um pneu, de subir em árvores, de soltar pipa, ou fazer castelinho de areia. Não falo do atual sedentarismo e vício tecnológico das crianças, mas da inocência.
    Existem coisas que chegam ao absurdo. A infância chegou a isso.
    Como pode? Como pode pequenos indivíduos serem mais maliciosos que os próprios adultos? Como podem ver o lado negro da vida? Deveria ser tudo colorido e limpo.
    Deixam-me pasma as cenas que presencio todos os dias. Meninos e meninas pouco desenvolvidos com brincadeiras elevadas demais para sua idade, e pensar que nem eu cheguei a esse ponto. E pensar que o mundo esteja se deteriorando.
    Admito que sempre fui atrasada para o meu tempo. Pelo menos quando tinha sete anos, a malícia chegava apenas nos palavrões que os outros proferiam, se não fosse por eles continuaria um longo tempo sem saber - não que eu os fale em público, mas os sei.
    Aos sete anos, meu irmão faz coisas que me repugna. De que adianta repreendê-lo? A sujeira continuaria ao seu redor.
    Pobres humanos, infelizes e desgraçados vermes - já diria Machado de Assis, com seus magníficos apelidos para conosco - não sabem a essência do que é ser puro, ter a mente limpa. Ver tudo como realmente é, sem deturpar a realidade, ou prestar atenção naquilo que não deveria ser enfatizado. Não sei o que acontece com essas meninas-mulheres que nascem tão desenvolvidas psico e fisicamente. Honro-me em ser lisa e ter tido minha verdadeira infância.
    Não sei como levantar tal assunto sem críticas negativas, sem me alterar, sem começar a xingar a vida. Simplesmente não há palavras cultas que definam a realidade. Ela é assim: negra, suja e incoerente.
    Se eu pudesse mostrar a esses pobres pequenos infelizes a alegria e o presente de ser uma criança, veriam o quanto perdem. Mais tarde saberão. Talvez não. Tornar-se-ão piores e arruinarão cada vez mais a humanidade. Afinal, nunca irão saber o que é aquilo. Da mesma forma que eu nunca irei saber como é roubar goiabas.